| Direitos Animais em Tempos de Capitalismo (parte 1) |
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| Bruno Müller | ||
| Sáb, 05 de Dezembro de 2009 13:34 | ||
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Introdução Neste texto pretendo analisar criticamente a relação entre capitalismo e direitos animais sob suas diversas facetas. As reflexões abaixo estão longe de esgotar o tema, por demais vasto e complexo, e têm, portanto, justamente a intenção de impulsionar o debate, cuja relevância tem sido ignorada pelos ativistas da causa animal. Esse debate não é puro devaneio intelectual. Os defensores dos animais precisam superar os preconceitos e a ingenuidade que os afastam das questões mais amplas sobre a qual a exploração animal está apoiada. O movimento pelos direitos animais interfere diretamente sobre as concepções ideológicas e as estruturas de poder da sociedade e, portanto, recusar-se a essa reflexão mais ampla irá comprometer seriamente o alcance de nossa luta. E, sendo a sociedade em que vivemos regida pelas relações capitalistas, precisamos de uma compreensão profunda do funcionamento e dos pressupostos ideológicos do capitalismo para atuarmos de forma mais efetiva em favor da transformação dessa realidade e a promoção dos direitos animais. O presente texto está dividido em duas partes principais. Na primeira, “Capitalismo e direitos animais” tento relacionar os pressupostos ideológicos do capitalismo com o pensamento e o ativismo pelos direitos animais. Um estudo sobre a economia política do capitalismo relacionada à questão animal escapa ao alcance desse texto, mas é igualmente importante para o nosso movimento. Por ora, quero principalmente ressaltar as implicações que a ideologia do capitalismo tem sobre a questão animal. A segunda parte, “Socialismo e direitos animais”, decorre da necessidade de, ao tratar do capitalismo, tratar também do sistema que se apresenta como alternativa a ele. Nela, tenho como referência o socialismo tal como foi pensado por Karl Marx e aplicado sob sua inspiração. Desde já, porém, insisto no erro político e metodológico que é tomar o marxismo como sinônimo de socialismo, razão pela qual uso com freqüência os conceitos de forma combinada: “socialismo marxista”. A ênfase que dou ao marxismo no texto não deriva do menosprezo pelas outras vertentes do socialismo, mas do reconhecimento da sua predominância, ainda hoje, como alternativa ao capitalismo, e da necessidade de reflexão crítica sobre a forma como se tentou implantar o socialismo no século XX. Por fim, nas conclusões, ofereço minhas próprias impressões sobre as implicações políticas e estratégicas resultantes de minha análise. A estrutura do texto tenta seguir uma seqüência lógica – tanto filosófica quanto histórica – e, portanto, peço ao leitor cautela e paciência antes de tirar suas próprias conclusões, tanto sobre o tema em questão quanto sobre o próprio texto. PARTE I: Capitalismo e direitos animais O antropocentrismo e a servidão primordiais A exploração animal é uma das instituições mais antigas da humanidade, muito anterior ao capitalismo. Ela data de aproximadamente 10 mil anos, época da domesticação dos primeiros animais, que é também a data aproximada do surgimento da agricultura e, consequentemente, a propriedade privada. Isso quer dizer que os animais estão entre os primeiros seres explorados e oprimidos pelos seres humanos. Justamente por sua ancestralidade, combater a exploração animal é uma luta tão inglória. A ideologia de que os animais existem para servir aos seres humanos é possivelmente tão antiga quanto os primeiros humanos capazes de articular conceitos abstratos, racionalizar e justificar comportamentos. Ela está tão arraigada que parece muitas vezes adormecida no subconsciente: muitos humanos se valem de produtos de origem animal sem jamais se questionar sobre as implicações éticas desse ato, porque para a maioria, a submissão dos animais aos nossos interesses sequer se constitui num problema ético e, portanto, não suscita dilemas ou questionamentos. Desse modo, a exploração animal atravessou diferentes épocas, culturais, formações sociais, políticas e econômicas. Ela é também, à sua maneira, democrática, servindo tanto ao rico industrial da pecuária intensiva exportadora, quanto ao pobre agricultor que cria porcos ou cabras para a subsistência e a geração de pequena renda, ou que usa bovinos ou eqüinos para transporte de mercadorias ou arar a terra, passando pelo indivíduo de classe média que compra um animal “de companhia” e o trata como um “membro da família”. O antropocentrismo é, sem sombra de dúvida, a ideologia mais universalmente difundida, hegemônica e socialmente aceita pelos seres humanos. Atravessa culturas, classes sociais, escolaridade, gerações, gênero, ideologias políticas e assim por diante... Para os seres humanos, o uso de animais está justificado não apenas pela necessidade ou pela produtividade. É percebido também como um direito, fundado sobre a tradição e sobre sua complacente autoimagem como ser “superior”. Em outras palavras, é uma ideologia que possui uma dimensão tanto prática quanto metafísica que, no último caso, repousa quer sobre o direito divino (“Deus pôs os animais na Terra para nos servir”, como muitos dizem), quer sobre o direito natural (“É natural que seja assim”, “Somos superiores”, “Temos direito de usufruir de tudo que a natureza oferece para o nosso bem-estar”, “Se os animais pudessem, fariam o mesmo”). Desse modo, sua fundamentação numa metafísica e numa superioridade presumida, resultando na redução dos animais não-humanos à condição de propriedade está muito próxima da ideologia da servidão e do escravismo. Servos eram os trabalhadores que estavam presos por tradição e herança à terra onde nasciam, devendo trabalhar por toda vida para o proprietário desta. Não eram escravos no sentido formal, mas também não eram livres. Quando morria, o proprietário rural legava a seus herdeiros não somente as suas propriedades, mas também os humanos que nela trabalhavam. Os escravos, por sua vez, eram efetivamente propriedade. As formas como se reduzia um ser humano à condição de escravos variavam de acordo com o contexto histórico e geográfico. A escravidão poderia resultar da impossibilidade de pagar uma dívida ou da captura em guerras, a forma mais comum, que observou-se tanto na Grécia e Roma antigas quanto na escravidão africana moderna. Independente da forma como alguém era feito escravo, essa condição tornava-se permanente e era também “legada” de pai para filho. Não é coincidência que nas próprias relações humanas, uma das primeiras formas estabelecidas de hierarquia se deu justamente sob essas formas, que justificavam a submissão de outros seres humanos sob as mesmas alegações de direito natural e direito divino que justificam a submissão dos animais, fundadas numa “superioridade” presumida do senhor de escravos, ou na crueza do exercício de poder. Desse ponto de vista, a associação tão afeita aos ativistas dos direitos animais, entre escravidão humana e escravidão animal é uma analogia quase perfeita. A ascensão do capitalismo e os ideais burgueses Os mercados e as trocas são instituições igualmente primordiais. O capitalismo, porém, surge muito tardiamente na história da humanidade, num contexto histórico e geográfico muito particular. Não basta a existência de mercados e trocas para caracterizar uma sociedade como capitalista. O que diferencia o capitalismo é que o mercado se torna a instituição mais importante da sociedade, e as relações sociais em si assumem uma forma capitalista, isto é, tornam-se relações de mercado, em que o trabalhador vende sua mão de obra como se fosse uma mercadoria. O capitalismo começa a surgir na Europa medieval, com a expansão das feiras e a crescente importância dos mercados, pela crescente riqueza que gerava. O mercado era uma instituição fraca, já que apenas um pequeno excedente da produção era destinado ao comércio. Os judeus, discriminados pela sua religião, eram proibidos de possuir propriedades de terra, acabando por encontrar no comércio e nas finanças seus meios de vida. Isso mostra como o prestígio das relações de mercado era baixo. O poder social, político e econômico acompanhava o poder territorial e militar da nobreza, que detinha privilégios. Junto com o capitalismo, ascende a classe de comerciantes e financistas que se beneficiavam da expansão dos mercados, a burguesia, cujo papel e poder na Idade Média eram bastante marginais. O processo somente seria concluído muitos séculos depois, porém, com a Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII. A ideologia do capitalismo surge numa clara contraposição com os pressupostos do escravismo e do servilismo. A desigualdade e os privilégios, na sociedade feudal, resultavam numa divisão rígida da sociedade. Durante a Idade Média e mesmo até muito depois dela, a lei não era igual para todos. Um camponês que assassinasse um nobre seria severamente punido, provavelmente com a morte. Se um nobre assassinasse um camponês, a punição, se houvesse, seria muito mais branda. À medida que a expansão do comércio se tornava uma fonte crescente de riqueza, a burguesia se tornava uma classe poderosa. Seu papel foi decisivo no financiamento da expansão marítima que levou à “descoberta” da América. Através da arrecadação de impostos, o comércio fortaleceu a posição dos reis em relação à nobreza, favorecendo o surgimento do Estado absolutista. Porém, o poder econômico da burguesia não foi imediatamente acompanhado por poder político ou prestígio social. A burguesia ainda fazia parte das classes “inferiores”, olhada com desprezo pela nobreza. Ser filho de um nobre significava ser membro de uma família distinta, de história e linhagem antigas, registradas por muitas gerações de poder, riqueza e honras militares. Um burguês não passava de um comerciante ou usurário “sem berço”. E justamente por sua posição marginal na sociedade, a burguesia foi a primeira classe a defender o princípio da igualdade. O liberalismo, sua ideologia por excelência, elegia a liberdade como valor máximo da sociedade, usando a igualdade tanto como fundamento filosófico quanto jurídico. Filosoficamente, fundamentado na noção de que todos os seres humanos são basicamente iguais e devem deter os mesmos direitos. Juridicamente, apoiado na igualdade de direitos entre todos os seres humanos como a premissa básica para o exercício da liberdade. O liberalismo também correspondia, porém, a uma necessidade econômica. Para que o trabalhador possa vender sua mão de obra no mercado, ele tem de ser, antes de tudo, livre. Se ele estiver preso à terra ou ao senhor, as relações de trabalho estão fora da lei de mercado. Assim, o liberalismo foi uma idéia radicalmente revolucionária, pois rompeu com o pensamento aristocrático que dividia a humanidade em grupos separados pela origem. Diferente do escravismo e do pensamento aristocrático, o liberalismo professava a igualdade básica entre os seres humanos: todos têm as mesmas características básicas, são dotados de razão. Idealmente, qualquer indivíduo, pelo seu esforço e talento, pode prosperar e se destacar socialmente. Desse modo, rejeita-se a idéia de que um ser humano possa ser discriminado pela sua origem social e, portanto, a lei deve ser igual para todos. Logo, as relações de servidão passam a ser tidas como infundadas e moralmente equivocadas. Elas também limitam a liberdade e, portanto, o espírito empreendedor que faz prosperar a sociedade. Segundo Adam Smith, filósofo liberal por excelência, pela busca egoísta do lucro o capitalista contribui para o progresso geral da nação. O mercado é uma instituição igualitária: todos podem vender e comprar, e prospera o mais apto. As leis do mercado regulam os desequilíbrios, mantendo a estabilidade e a prosperidade da economia. O capitalismo, como vemos, é uma ideologia essencialmente igualitária e individualista – e precisava sê-lo, pois estes princípios são as antípodas do Antigo Regime que limitava o seu desenvolvimento, no qual os privilégios de nascimento determinavam aquilo que um ser humano podia esperar da vida, e o indivíduo estava submetido à tirania da servidão. Os ideais burgueses da igualdade e da valorização do indivíduo ganharam expressão política por meio dos filósofos iluministas. De inspiração iluminista é a “Declaração dos Direitos do Homem”, da Revolução Francesa, bem como a famosa “Declaração de Independência” dos Estados Unidos, que atesta: Consideramos essas verdades como autoevidentes: que todos os homens são criados iguais; que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre eles estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.
O Iluminismo, corrente de pensamento que evidencia a ascensão política da burguesia e a ascensão ideológica do liberalismo, inaugura o debate sobre os direitos humanos no Ocidente. E com esse debate ressurge também a discussão sobre os direitos dos animais, que foi varrido da Europa pela filosofia cristã. De fato, foram poucos os grandes filósofos iluministas que não sentiram a necessidade de perguntar-se se os seres humanos têm deveres para com os animais. Alguns eram mais favoráveis a esta tese, como Rousseau, que disse, por exemplo: [Os animais,] relacionados de certo modo com nossa natureza pela sensibilidade de que são dotados, julgar-se-á que também devem participar do direito natural e que o homem está sujeito a uma certa espécie de deveres para com eles. Parece de fato que, se sou obrigado a não fazer nenhum mal ao meu semelhante, não é tanto porque ele é um ser racional quanto porque é um ser sensível (...). (Rousseau, 2005: 155)
Portanto, Embora isso não tenha resultado em efeitos práticos no reconhecimento de direitos aos animais, existe uma indiscutível confluência entre os ideais igualitários do capitalismo liberal e os ideais contemporâneos dos direitos animais, e até mesmo uma influência direta exposta por alguns próceres do Iluminismo. O capitalismo e a mercantilização das relações sociais O capitalismo teve, entretanto, um impacto profundamente perverso sobre as relações sociais entre os seres humanos e a relação destes com a natureza. Separada a realidade e as implicações práticas do capitalismo dos altos valores que ele aparentemente professa, a conclusão sobre sua natureza é bem mais sombria. O capitalismo não respeita nem obedece a preceitos morais ou éticos: é a lei do mercado que sempre prevalece. A regra fundamental do capitalismo é a da maximização de lucros. A verdadeira conseqüência do capitalismo foi a mercantilização de todo e qualquer tipo de ser e de interação entre seres, isto é: tudo foi reduzido a mercadoria. A ascensão do capitalismo se deu à custa de muita violência, arrancando os camponeses de suas terras para jogá-los na miséria das fábricas. Nas primeiras fábricas da Inglaterra, os operários trabalhavam em ambientes insalubres, poluídos, com pouca iluminação e circulação de ar, por jornadas de até 14 horas, sem direito a pausa. E não apenas adultos, mas também crianças. Seu salário cobria não mais do que o elementar, o suficiente para não morrer de fome. O aparente igualitarismo capitalista se tornou, na prática, uma retórica desprovida de conteúdo, diante da opulência de uma classe proprietária convivendo com a miséria e pobreza dos trabalhadores. Nem mesmo o princípio legal da igualdade subsistiu: por décadas, o direito de voto continuava restrito aos detentores de certo nível de renda, do sexo masculino. O sufrágio universal masculino foi primeiro posto em prática na França em 1848, e estendido às mulheres primeiro na Nova Zelândia, em 1893. Apenas a luta política dos trabalhadores foi capaz de dirimir os abusos mais flagrantes e conquistar direitos que fizessem da igualdade perante a lei uma expressão minimamente verdadeira. Ainda assim, a racionalidade do capitalismo é fundamentalmente a mesma. Um bom exemplo é o discurso do trabalhador feliz: bem remunerado, motivado, saudável e participativo, o trabalhador satisfeito e que se sente “parte” da empresa produz mais e melhor e, portanto, gera mais lucro. Não é uma aspiração humanitária, mas uma questão de produtividade. Assim entendemos o verdadeiro significado do egoísmo ético de Adam Smith. Pensemos um pouco em alguns jargões econômicos que nós usamos automaticamente sem refletir sobre seu conteúdo. O que implica o conceito de “mercado de trabalho”? O mercado de trabalho é, como já dissemos, o lugar onde o trabalhador vende sua mão de obra por uma remuneração para se sustentar. Isso significa, em última instância, que ele vende a si mesmo. O proletário moderno é um escravo que se vende aos poucos, “renovando” sua escravidão mensalmente, ao invés de ser propriedade permanente. É bem certo que ele é “livre” para romper com seu contrato de trabalho, mas a conseqüência disso pode ser a fome, a miséria, a exclusão social e até moral (“vai trabalhar, vagabundo!”), se ele não encontrar outro “senhor” disposto a “comprá-lo”. Na prática, ele não é menos “mercadoria” do que o escravo, apenas tem a liberdade de administrar sua própria renda – o que em muitos casos pode ser uma grande desvantagem... Lógico está, portanto, que a relação de mercado é assimétrica. Quem dita os termos do contrato é aquele que possui o poder econômico, o que por sua vez obriga o indivíduo a trabalhar em situações freqüentemente degradantes e perigosas “apenas” para efeito de sobreviver e manter algum mínimo de dignidade. Vejamos outro conceito que sinaliza melhor a discussão que proponho empreender. O que é um “recurso natural”? O que implica ser um “recurso natural”? Um recurso, segundo uma das definições do dicionário Houaiss, é um “meio de que se pode dispor”: um meio para um fim, um instrumento. Um “recurso natural” é algum elemento da natureza que pode ser apropriado e utilizado, transformado em algum bem material que gere riqueza. É algo que não tem valor em si mesmo, mas apenas o valor em função dos benefícios que dele podem ser extraídos. Esse é o sentido igualmente sombrio do conceito de “recursos humanos”, que devem ser “geridos”. É mais bonito dizer que uma empresa tem “recursos humanos” em vez de “empregados” (que sugere uma antipática idéia de hierarquia) apenas porque a compreensão dessa novilíngua, num país onde a educação formal é tão precária, escapa a uma maioria e é convenientemente evitada por uma minoria. Um “recurso” nada mais é do que uma coisa. Para o ideário capitalista, nós, e a natureza, nada mais somos do que “coisas”: meios para o fim da acumulação de riqueza e do lucro. A manifestação histórica do capitalismo demonstra, portanto, a fragilidade de suas concepções de liberdade e igualdade. Limitando-se à igualdade formal, ignora-se os efeitos perversos da desigualdade gerada por um sistema construído em torno da liberdade dos mercados, sendo esta última o verdadeiro princípio básico do capitalismo. Uma perversidade que na verdade limita, e não amplia, a liberdade individual. A ética capitalista, construída em torno do egoísmo ético de Adam Smith, uma ética instrumental do lucro, resulta, na prática, numa franca hostilidade com a maioria dos princípios éticos proferidos pelos próprios filósofos iluministas, tidos como porta-vozes da revolução burguesa. A sanha por acumulação de riqueza, não importando as conseqüências, é o resultado prático dessa visão de mundo. E é por isso que o capitalismo, malgrado seu suposto igualitarismo, pode conviver tranquilamente com formas de exploração e opressão extremas, inclusive pré-capitalistas, como o sistema de castas indiano e o próprio escravismo que parecia sua antípoda. Se hoje algumas normas mínimas de dignidade humana são aceitas e impostas, isso não se deve, como foi dito, a uma racionalidade intrínseca do capitalismo e das leis de mercado, como supunham Adam Smith e os liberais de modo geral, mas a uma intervenção exterior, seja por resultado das lutas sociais, seja porque os homens de Estado decididos a salvar o capitalismo, impuseram normas e regulamentações para evitar o colapso do sistema nos anos 1930. Mesmo assim, essas normas estão longe de serem universais em sua aplicação. Alguns exemplos demonstram que a ética dos direitos não corresponde à lógica do sistema capitalista. Nos países periféricos, onde os movimentos operários são mais fracos, e as elites mais conservadoras, as reivindicações sociais e ameaças à ordem (reais ou imaginárias), foram, historicamente, enfrentadas não com reformas, mas pelo recurso à força. Nas zonas de “fronteira” da expansão do capitalismo, as relações econômicas pré-capitalistas, semicapitalistas ou de um capitalismo primitivo ainda têm efeitos trágicos na vida dos indivíduos – e isso, nós vemos em nosso próprio país, onde as zonas de expansão econômica são marcadas pelo trabalho escravo e semi-escravo, a grilagem de terras, os assassinatos políticos, o completo descaso com o meio ambiente. Todo obstáculo à acumulação de capital pode ser removida à força, se necessário. Por fim, mesmo nos países mais industrializados, tão logo a ameaça do colapso econômico (e do comunismo) dissipou-se, o “processo civilizador” do capitalismo sofreu um golpe fatal na ascensão do neoliberalismo. A partir dos anos 1970 as políticas sociais do chamado Estado do Bem-Estar Social passaram a ser atacadas como motor da crise de estagnação pela qual passavam os Estados capitalistas. O neoliberalismo, doutrina que se desenhava desde os anos 1940, surge então como solução. O historiador Perry Anderson define assim o pensamento neoliberal: F. A. von Hayek [teórico neoliberal] e seus companheiros afirmam que as raízes da crise imergem no poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de maneira mais geral, do movimento operário. Segundo eles, os sindicatos minaram a acumulação privada (do investimento) com suas reivindicações salariais e com pressões, visando que o Estado aumentasse incessantemente as despesas sociais parasitárias. (...) Desde então, o remédio é claro: manter um Estado forte, capaz de quebrar a força dos sindicatos e de controlar estritamente a evolução da massa monetária (política monetarista). Esse Estado deve, em compensação, ser moderado no domínio das despesas sociais e abster-se de intervenções econômicas (...), acompanhada por restrições das despesas sociais e pela restauração de uma taxa de desemprego tida como natural, ou seja, pela criação de um “exército de reserva de assalariados” (...) [e] uma redução dos impostos sobre as rendas mais elevadas (...). Assim, uma nova e salutar desigualdade reaparecerá e dinamizará as economias dos países desenvolvidos (...). (Anderson, 2002: 19-20).
Como os processos sociais são dinâmicos e mutáveis, hoje o Estado aparece novamente como a “solução mágica” para salvar o capitalismo do desastre. Uma coisa, porém, está clara: desde o início da ascensão do capitalismo, durante o mercantilismo do século XVI, o sistema de organização da economia vive em eternas alternâncias cíclicas de intervencionismo e liberalismo de acordo com as conveniências. O Estado não é (como deseja uma parte da esquerda) o meio para nos salvar do capitalismo, mas sim um meio utilizado para salvar o próprio capitalismo de si mesmo – mantendo a ordem política e social e, sempre que necessário, investindo na economia, salvando os grandes capitalistas e socializando as perdas com toda a sociedade. Os animais como máquinas Seria apenas por milagre que nossa relação com os animais poderia escapar desta construção. O capitalismo não inventou a exploração animal, mas elevou a exploração, de um modo geral, à condição de forma básica de interação entre indivíduos e interação com a natureza, e naturaliza e justifica a exploração como uma forma de relação “racional” e “moral”, colocando-a como a forma básica de relação social, uma vez que a vida passa a se organizar em função das relações de troca. Fundado sobre a racionalidade do mercado – que comanda apenas a maximização dos lucros – a exploração animal atingiu uma dimensão nunca antes vista. Se nosso sistema de crenças reduz todos os seres e interações à condição de objeto e mercadoria, não há a possibilidade de um único elemento escapar da equação. Especialmente um com raízes tão primordiais, fincado sobre uma das mais antigas, poderosas e universais das ideologias humanas, o antropocentrismo. Não parece provável, portanto, que seja justamente a verdadeira liberdade dos animais não-humanos e a abolição de todo e qualquer uso dos mesmos que poderá ser revista e abandonada dentro desse sistema social. Os capitalistas, na verdade, foram pródigos em se aproveitar de relações de exploração e opressão pré-capitalistas e usá-las como instrumento de acumulação de capital. Foi assim que a escravidão coexistiu com o capitalismo até o século XIX. Nas colônias, as potências capitalistas se valiam das relações econômicas e estruturas sociais nativas como forma de dominação indireta (a Grã-Bretanha, maior potência capitalista do século XIX e pioneira na Revolução Industrial foi mestra neste modelo de colonização, da qual deriva a expressão “dividir para reinar”). O patriarcado, outra relação imemorial de dominação, foi adaptado às condições das sociedades capitalistas, e de fato expandido juntamente com o capitalismo. Ao interferir em regimes de trabalho comunitários, a imposição do regime capitalista da propriedade privada introduziu não apenas a desigualdade social e a dependência externa de economias orientadas à monocultura ou produção de matérias-primas. O regime de propriedade privado, imposto a sociedades onde esta era antes comunitária, levou a uma divisão sexual do trabalho mais rígida e, assim, uma concentração de poder nas mãos dos homens. O trabalho das mulheres em organização doméstica, apoio de segurança social e produção de comida, não pagos, foram socialmente marginalizados. Os trabalhos pagos seguiram uma especialização sexual que deixou às mulheres os empregos de menor status e rendimento. Estudos feministas como os de Judith Carney no Gâmbia (1996) e Atu Emberson-Bain nas ilhas do Pacífico (1994) demonstram esse ponto. Outros sistemas sociais, mesmo opressivos e exploratórios, eram mediados por códigos morais que interditavam certos tipos de conduta, mesmo que economicamente mais rentáveis (e ainda que estes códigos morais fossem eles mesmos extremamente falhos e freqüentemente tão injustos quanto qualquer forma de exploração). No capitalismo, a única medida para as relações de produção é a rentabilidade. É assim que a destruição ambiental, a pobreza e a fome ainda são um bom negócio, até que a pressão econômica das crises ambiental e social force uma mudança de comportamento, unicamente na medida em que elas ameacem o processo de produção e acumulação de capital. Claro está, portanto, que a razão prática do capitalismo está, na verdade, frontalmente oposta à ética dos direitos de um modo geral; logo, também oposta aos direitos animais e o abolicionismo. Como supor que é possível a consagração dos direitos animais dentro de um contexto social, político e econômico que enxerga os indivíduos (humanos e não-humanos) como meios para o fim da geração de riqueza (e maximização do lucro)? Podemos, realisticamente, defender (como acreditam alguns ativistas veganos) que é possível manter essa organização social mercantilizadora, excluindo apenas os animais não-humanos da equação? A objetificação dos animais atingiu o seu ápice e encaixou-se perfeitamente na lógica capitalista. Nesse sistema, eles foram definitivamente reduzidos à condição de máquinas produtoras de carne, leite, ovos, lã, couro, mel. Tratados como máquinas, manejados como máquinas, e produzidos em escala industrial: manipulados para maximizar ao máximo sua produtividade, empilhados no menor espaço possível, produzindo na sua capacidade máxima, descartados no instante em que se tornam improdutivos, e tendo seus resíduos aproveitados e reciclados ao máximo para incrementar os lucros. A racionalidade econômica e industrial por trás da criação intensiva de animais é irresistível para o capitalista e está em perfeito acordo e sintonia com os princípios do capitalismo. O capitalismo não inventou a exploração animal, mas a levou ao seu “estado da arte”, ou seja, sua forma mais pura, mais perfeita e mais radical. Portanto, ela não pode ser confrontada dentro da própria lógica do sistema – ela só poderá ser superada por um esforço externo que necessariamente confronte e rompa com essa lógica. Na próxima parte investigarei as possibilidades de uma alternativa ao capitalismo que seja, igualmente, coerente com a ética dos direitos e, portanto, os direitos humanos e animais.
Para acessar a parte 2 deste artigo, clique aqui.
Bruno Müller Pensata Animal nº 30 - Dezembro de 2009 - www.pensataanimal.net Adicione esta página entre as favoritas em sua rede social |
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| Última atualização em Dom, 16 de Maio de 2010 14:55 |









Comentarios
Sou estudante de direito e me formo em 2011.1, começarei a fazer minha monografia agora, tive a idéia do tema "dierito animalxdignidad e humana", esquisei no google e apreceu seu texto, gostaria de idéias suas...estou meio insegura a respeito do assunto, primeiramente me parece que existem poucas fntes de pesquisa, gostaria de umas dicas suas...Aguardo retorno, desde já agradeço pela colaboração!
Camila Brandão
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