| Está tão na cara que é difícil de enxergar (parte I) |
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| Luciano Carlos Cunha | |||
| Qua, 13 de Fevereiro de 2008 00:00 | |||
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No presente texto, faço um resumo de alguns tópicos principais que trago como uma crítica ao movimento geral de defesa animal e ao chamado movimento pelo vegetarianismo ou veganismo. Não é uma crítica sobre a validade das metas do movimento - ou seja, não é uma crítica especista discordando da idéia de que animais devam ser incluídos na esfera de consideração moral ou discordando que sejam sujeitos de direito - mas sim, uma crítica com relação aos meios empregados para conduzir a tais metas e com relação ao enfoque dado pelo movimento até então, tanto do ponto de vista da ineficácia desses meios e enfoque, quanto da inconsistência moral em se buscar tal tipo de estratégia. O texto está dividido em oito partes menores, para facilitar a leitura e discussão do mesmo. Cada uma das partes apresenta o que considero como sendo alguma das principais falhas do movimento até então. Há um movimento de defesa animal ativo em boa parte do mundo, há pelo menos três décadas, e as coisas parecem não ter mudado muito (provavelmente estejam até piores a cada dia que passa) para os animais não-humanos. O objetivo do texto é tentar explicar o que presumo que seja o motivo das coisas não estarem caminhando, e, como uma autocrítica, dar a oportunidade para cada um de nós poder analisar se os argumentos que apresento são, de fato, plausíveis ou não - e o mais importante, se sim ou não, por que? - , enfim, o objetivo da crítica exposta aqui é rever nossas falhas para que possamos consertá-las a tempo. Como é um resumo, terei de passar por cima de muitos argumentos, questões e objeções importantes, e, como cada tópico apresentado aqui rende discussão para talvez um livro inteiro, pretendo, no futuro, escrever artigos expandindo as idéias aqui apresentadas, abordando-as mais detalhadamente. O objetivo de apresentar um resumo primeiramente é devido ao fato de, infelizmente, os textos mais longos serem lidos por poucas pessoas, e penso que as críticas que aqui faço precisam ser analisadas pelo movimento, de preferência o mais rápido possível. Uma prévia desse material foi apresentada e discutida em comunidades no Orkut em setembro/outubro do ano passado (2007), o que gerou uma certa aversão ao material, por parte de algumas pessoas ligadas ao movimento. Ironicamente, boa parte da aversão se devia ao fato de muitas pessoas associarem a posição defendida aqui com violência. Para os que estão acostumados a fazer uma leitura cuidadosa e não muito rápida, creio que ficará claro que essa conclusão não se segue dos argumentos expostos aqui, mas, para os menos atentos, enfatizo desde já que é um erro deduzir dos argumentos apresentados aqui, que devemos usar como estratégia do movimento a violência física contra pessoas. Para essas pessoas, é preciso lembrar que não possuímos apenas essas duas opções: ou nos calamos totalmente diante das injustiças, ou então jogamos uma bomba em nossos adversários; pois isso impede de enxergarmos outras possibilidades: o debate em torno do raciocínio ético e a tentativa de buscar medidas legais que realmente contribuam para o abolicionismo são apenas duas dessas opções. Não me aprofundarei aqui nas críticas já feitas ao movimento pelo filósofo e jurista Gary L. Francione em seu livro Rain Without Thunder - The Ideology of Animal Rights Movement. Tais críticas são importantes e mereceriam vários artigos à parte, que também pretendo publicar no futuro. No presente texto, tentarei apenas salientar outros pontos, que se relacionam com aqueles apontados na crítica tecida por Francione, mas aqui foco mais a nível do que fazemos enquanto indivíduos, quando debatemos ou de outra forma, passamos nossa mensagem; do nas ações buscadas por grupos organizados de defesa animal. Concordo com Francione que os movimentos bem-estarista e neo bem-estarista não contribuem para uma erradicação incremental do status dos animais não-humanos enquanto itens de propriedade dos humanos, e por conseguinte, de sua visão instrumental; pelo contrário, reforçam essa visão. A crítica que faço aqui não se dirige aos defensores dos direitos animais, os abolicionistas, pois muito provavelmente as questões que aponto já estão claras à esses defensores, mas sim, à visão geral que as pessoas têm sobre animais não-humanos, e, coincidentemente, muitas dessas pessoas formam o movimento mais amplo que se diz de defesa animal. O assunto que abordo é mais geral. É um ponto que penso ser necessário ficar esclarecido antes de debatermos qualquer coisa relacionada ao assunto de defesa animal. É algo tão óbvio, que mesmo autores que provavelmente discordam em muitos outros aspectos - Peter Singer, Tom Regan, Gary L. Francione, Richard Ryder, James Rachels, Steven M. Wise, por exemplo - parecem concordar com esses pontos. Talvez então, o que eu aponte aqui não traga nada de novo, mas também, pode ser que esteja tão "na cara" que não estejamos conseguindo enxergar. Com isso, a crítica aqui talvez ajude a entendermos porque as pessoas não tomaram uma posição ética com relação aos não-humanos ainda. Segue abaixo, o primeiro dos tópicos: SOBRE TOMAR UMA DECISÃO ÉTICA Antes de entrarmos propriamente na discussão sobre que atitudes práticas são implicadas como conseqüência de se tomar uma posição ética com relação aos animais não-humanos, é preciso abordar aqui algumas posições que não derivam de motivações éticas, mas que possuem, na prática, algumas atitudes que são as mesmas de quem tomou uma posição ética com relação aos animais não-humanos. A mais notável dessas atitudes é a adoção do veganismo. A opção por falar aqui do veganismo e não do vegetarianismo foi proposital, como será explicado mais adiante no texto. Muitas pessoas adotam uma dieta vegana não como uma conseqüência de terem adotado uma postura ética com relação aos animais não-humanos, mas por motivos de saúde, ou motivos religiosos, ou porque defendem que essa é uma dieta mais natural para a espécie humana, ou ainda por causa, do impacto ambiental causado pela indústria de exploração dos animais, por exemplo. Desta maneira, pessoas que adotaram uma postura ética com relação aos animais não-humanos e algumas pessoas que não adotaram tal postura podem manter certas práticas comuns, embora seus conjunto de valores sejam diferentes - ou seja - não se pode deduzir do fato de alguém ser vegano(a) que esse alguém é ético para com os animais não-humanos. O veganismo é conseqüência de vários motivos diferentes. Muitos defensores dos animais não vêem isso como um problema. "O que importa é que essas pessoas não comem os animais, e os animais são beneficiados com isso, obviamente", dizem esses defensores. Eu não discordo do fato de que é melhor existir alguém que, mesmo sem querer, acaba fazendo um bem a outro, do que alguém que sabe exatamente que deve fazer um bem ao outro, mas, por vontade fraca não o faz. Porém, o que questiono aqui, é, se realmente ser vegano e não ser ético para com os animais é realmente um benefício tão grande para estes últimos, e, se há realmente uma firmeza na adoção do veganismo por parte de veganos por outros motivos que não como conseqüência da adoção de uma postura ética para com relação aos animais não-humanos. Afinal de contas, os animais não-humanos são explorados em muitas outras áreas que não dizem respeito à alimentação - como por exemplo, a experimentação animal e o entretenimento -, isso sem contar o fato de que, se alguém é vegano por motivos de saúde, provavelmente não verá problemas em consumir algum alimento de origem animal que for comprovadamente saudável, ou alguém que seja vegano por considerar isso mais natural, também não verá problemas em consumir comida de origem animal caso algum dia fique provado que comida de origem animal é natural para o ser humano. No parágrafo anterior, a palavra conseqüência aparece em itálico justamente para apontar outra característica dos debates em relação ao veganismo/vegetarianismo: geralmente, essas dietas não aparecem como conseqüências, e sim como o fim em si. Muitas vezes, vegetarianos e veganos usam os outros motivos (que não o raciocínio ético) para alguém adotar tais dietas como defesa para não discutirem a questão ética: "Você é vegano por questões éticas, mas eu sou por questões de saúde", dizem. Daí, deduzem que, "já que sou vegano por motivos de saúde, responder pelas questões éticas não diz respeito a mim". O erro com essa conclusão se deve ao fato de enxergar o veganismo como fim, e não como uma conseqüência. Quem deve responder pelas questões éticas são todos aqueles seres racionais que causam dano a outros indivíduos com suas ações ou omissões, e disso, nenhum ser humano plenamente racional está dispensado. Não podemos nos livrar das questões éticas com esses artifícios, porque questões de ética dizem respeito a todos que sabem das conseqüências de suas escolhas, e, uma vez que sabemos destas, não podemos nos livrar da responsabilidade pela escolha. Não há mais neutralidade ou inocência no ato ou omissão. Assim sendo, creio ter mostrado que a questão ética que é trazida pela pergunta "devo usar os animais não-humanos?" diz respeito a todo e qualquer ser racional que possa pensar sobre o assunto, e não somente àqueles que já decidiram escolher agir eticamente para com os não-humanos. Veganos, vegetarianos, carnívoros, frugívoros... ninguém está dispensado de responder as perguntas que a nossa razão provoca. Passemos agora a um exame das atitudes daqueles que dizem terem tomado uma posição ética com relação aos animais não-humanos. Antes de iniciarmos a análise, um aviso importante. Aqueles que pensam ser a ética relativa à cada sociedade ou subjetiva a cada indivíduo muito provavelmente não entenderão a análise feita aqui. A crítica feita aqui é um exercício de raciocínio ético, e, como as duas posições (relativismo e subjetivismo) não admitem que a razão possa ter um papel na formulação dos juízos e princípios éticos, realmente fica difícil (e inútil) discutir ética nessas bases. Uma refutação do relativismo e do subjetivismo, bem como algo sobre o papel da razão na ética podem ser encontrados no artigo dividido em seis partes disponível aqui: http://www.pensataanimal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=126&Itemid=1. Para os que defendem que a ética é relativa ou subjetiva, é necessário primeiro lerem o referido artigo para daí então compreenderem em que campo se traça a crítica feita aqui. Neste item, também, pelo desejo de ser breve, não abordarei aqui os argumentos contra e a favor da inclusão dos animais não-humanos na esfera de consideração moral. Para os que não conhecem ainda os motivos pelos quais a exigência de coerência no uso princípios éticos exige que se estenda aos não-humanos a consideração moral direta, eles estão resumidos aqui: http://www.pensataanimal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=116&Itemid=1. Assim, neste item não abordarei a pergunta "por que devo ser ético para com relação aos não-humanos?", que já foi abordada exaustivamente no artigo referido acima. Concentro-me então, nas implicações práticas para aqueles que já adotaram uma postura ética com relação aos animais não-humanos. Minha questão para o presente artigo é a seguinte: "Muitas pessoas que decidiram se tornar veganas ou vegetarianas alegam que tomaram essa decisão por motivos éticos. Muitas dessas mesmas pessoas também alegam que não querem convencer ninguém a parar de comer animais. É possível manter as duas posições coerentemente: tomar uma decisão ética e; não querer e não fazer uma exigência para que os outros também tomem a mesma posição?". Vale lembrar aqui, que o termo exigência se refere a uma exigência amparada pelos princípios da justiça. Não é um por favor, mas uma reivindicação, do mesmo modo que são reivindicados os direitos humanos. Obviamente, não falo aqui de uma exigência que possa ferir fisicamente os indivíduos a quem devemos esclarecer; falo, ao invés, da exigência através da argumentação na qual aparecem claramente os motivos do porquê matar um não-humano ser tão errado quanto matar um humano, por exemplo. Para deixar as coisas mais claras, a pergunta pode ser também formulada como: "é possível este dever (e qualquer outro) valer para mim e não valer para os outros agentes racionais capazes de cumpri-lo?". Não abordarei aqui a seguinte situação: "sim, eu concordo que os outros também deveriam cumprir o dever, mas tenho medo de argumentar com eles, posso sofrer violência física, ou pode, de alguma maneira, terminar mal a minha investida, enfim, tenho restrições práticas para fazer tal exigência". O que analisarei aqui é a afirmação de que muitos vegetarianos e veganos que se dizem por questões éticas fazem: "Sou vegano por questões éticas, mas não me importo, nem acho que seja errado outras pessoas comerem animais, portanto, não quero convencer ninguém a parar de comê-los". Portanto, quando menciono a palavra exigência, no decorrer do texto, não estou falando que temos condições de fazer com facilidade essa exigência na prática, (da mesma maneira que exigimos que os outros respeitem direitos humanos - pois humanos não são mais itens de propriedade de seus senhores, e, perante à lei, já possuem direitos, e essa é uma diferença considerável ); estou, ao invés, perguntando: "tomei realmente uma decisão ética se não considero errado que outros agentes façam exatamente a mesma coisa que considero errada quando sou eu que a pratico?" Uma questão de ética se distingue de uma questão meramente de gosto pessoal pelo fato de, na primeira, podermos atingir os interesses de outros com as conseqüências de nossas ações ou omissões e; na segunda, essas conseqüências não saírem da esfera individual. Se eu sou fã de Heavy Metal não importa se outras pessoas odeiam esse estilo musical: nem eu atinjo maleficamente o outro pelo simples fato do meu ouvido se identificar com esse tipo de música - desde que eu não trancafie ninguém em um quarto e o obrigue a ouvir - , nem as outras pessoas me atingem maleficamente por o detestarem. Não há algo como "obrigações" quanto ao gênero musical. Ninguém me causa um dano comparável a, por exemplo, dispor da minha vida ou violar minha integridade física, simplesmente por não gostar das mesmas coisas que gosto. Por isso, chamamos de questão de gosto. É então uma questão subjetiva no sentido em que os outros continuam livres para fazer o que quiserem, quer eu goste quer eu não goste de tal gênero musical. Um juízo ético possui algumas exigências formais. Uma dessas exigências diz respeito à generalidade2 do princípio. Um dos motivos pelos quais precisamos de princípios para orientar a nossa conduta é justamente por não conseguirmos prever todas as conseqüências a longo prazo das nossas escolhas. Princípios entram em cena porque percebemos que, se um princípio serviu para um caso, provavelmente servirá para outros casos muito semelhantes. Assim, uma das exigências feitas pela razão para que um princípio seja considerado ético, diz respeito a verificar se ele se mantém para casos semelhantes. Em outras palavras, se vamos usar outro princípio em um caso semelhante, temos que apontar uma diferença - um porquê - moralmente relevante em tal caso, que justifique enquadrá-lo em outra categoria usar outro princípio e não aquele. Agora, perceba seguinte exemplo: Se eu digo que me sinto horrorizado com o fato de me imaginar participando de um ato de estupro, e que jamais faria tal coisa, mas também digo que, não me importo se os outros escolhem fazer tal ato e não reivindico (pelo menos conceitualmente, caso eu não tenha condições de reivindicar isso na prática) que os outros parem de fazer, não tomei, de maneira alguma, uma decisão ética com relação ao estupro. Como inevitavelmente a ética trabalha com os conceitos de certo e errado, eu não posso coerentemente afirmar que "um ato X é errado, e o ato Y, que é exatamente igual ao ato X, com a diferença que é outra pessoa que o está praticando é certo", pois desta maneira, não estarei falando nada sobre o ato em si, mas apenas reportando como me sinto em relação a tal ato. Se perguntarem a mim: "por que você pensa ser errado você participar de um ato de estupro?", obviamente minha resposta deve ser "porque a pessoa estuprada sofre um terrível mal". O problema é que, se eu não mantenho que para os outros também é errado praticar tal ato, eu teria de, no mínimo, apontar que as vítimas não sofrem um mal caso sejam outras pessoas que realizem o ato - o que, obviamente é impossível. A questão de eu meramente me preocupar com o fato de ser eu mesmo o autor do crime, traz erroneamente o assunto para a esfera subjetiva (e as vítimas do estupro continuam a sofrer um terrível mal, seja lá quem for o autor - e isso não possui nada de subjetivo). Quando se atinge o corpo do outro, as decisões, para serem éticas, precisam tomar o ponto de vista dos atingidos pela ação (os pacientes da ação) e não meramente o ponto de vista do agente, pois não é uma questão de gosto. Questões de ética existem por causa do mal que podemos fazer aos pacientes da ação e do poder que temos de escolher evitar esse mal, agindo de uma maneira e não de outra. Aqueles que não estupram mas não se importam que os outros estuprem e não buscam reivindicar que os outros parem de estuprar não podem dizer que tomaram uma decisão ética. No máximo, podem dizer que não gostam de estuprar. Ainda, no máximo, fazem algo para ficar com a consciência limpa, mas não por motivos éticos. Podem alegar que têm medo de sofrer ataques de pessoas que pensam o contrário, caso façam a exigência, a reivindicação e isso tudo é compreensível; mas alegar que não há nada de errado se os outros fizerem o mesmo ato, retira, erroneamente o assunto da esfera da ética. Não há sentido em falar que algo é certo ou errado se não é para todos os que tem condições de cumprir o dever, cumprirem, pois, se assim o fosse, que sentido teria falar em certo/errado? Seriam meramente questões de gosto/não gosto. Assim, tomar uma decisão ética envolve automaticamente concluir que todos os outros agentes morais3 devem tomar a mesma decisão, pois um ponto de vista ético pressupõe o ponto de vista do paciente da ação, e para este, é indiferente a identidade do autor que praticará a violação que sofrerá. Precisamos vincular tudo o que falamos, agora, com a questão animal. Diante do acima exposto, alguém pode alegar: "então vamos continuar a tratar a questão como se fosse meramente de gosto". Essa posição esquece que a questão em si já é de ética, pois atinge os interesses de outros indivíduos. Além disso, como seres racionais teríamos ainda que explicar, diante da exigência de generalidade, porque é que em um caso adotamos um princípio e em outro muito semelhante, adotamos outro. Quando se trata de nossa própria vida e integridade física, exigimos que os outros nos respeitem. Quando outros indivíduos, diante do mesmo ato, sofrem exatamente o mesmo tipo de mal, tentamos encaixar a questão na categoria de "gosto pessoal", simplesmente por não sermos nós que estamos ali a sofrer o mal. Se somos coerentes, das duas, uma: a) ou estendemos aos outros indivíduos o mesmo respeito que exigimos para nós; ou b) exigimos que os outros nos tratem com o mesmo desrespeito que escolhemos tratar os outros indivíduos não-humanos, pacientes de nossas ações. Os que escolheram a opção "b" não estão mais aqui para contar a história, pois tiveram que exigir serem mortos. Há ainda outra objeção, que é preciso abordar. Algumas pessoas podem alegar que casos que envolvam humanos e casos que envolvam não-humanos são diferentes e requerem princípios diferentes. Não estou falando aqui de um argumento especista, alegando alguma superioridade ou maior valor de seres da espécie Homo sapiens, mas de algo um tanto diferente. Algumas pessoas dizem que podemos claramente afirmar que é errado para qualquer ser humano estuprar outro ser humano porque nossa sociedade amplamente aceita como errado o ato de estuprar e já foram declarados direitos humanos. Assim, dizem eles, é muito mais fácil se exigir que sejam respeitados os humanos, o que nos leva a conclusão de que as questões referentes a animais não-humanos sejam relegadas a questões de gosto até que as pessoas mudem sua percepção. Interessante notar que esse argumento não dá uma razão a favor de não exigir, reivindicar que outros sejam éticos para com os animais. Pelo contrário, dá uma razão para que a reivindicação seja feita o mais rápido possível. As pessoas usam os animais não-humanos por algum motivo. E o motivo principal é que elas enxergam esses indivíduos como meios para um fim, ferramentas, utensílios, justamente por terem essa crença. E toda a nossa sociedade foi pautada nessa crença, a qual é eticamente injustificável. As pessoas não mudarão suas práticas enquanto não mudarem os seus conceitos sobre o que é certo e o que não é, pois são esses conceitos que orientam as escolhas das pessoas. Não há mudança prática sem uma mudança conceitual, o que exige que aqueles que já compreenderam que aos não-humanos sejam estendidos direitos, exponham os argumentos que defendem esses indivíduos, o mais rápido possível. De outra maneira, os defensores dos animais correm o risco de confortavelmente enganarem a si mesmos achando que todos na nossa sociedade - sem que ninguém lhes diga, apresente argumentos, ou questione - irão, por vontade própria, buscar estender aos animais não-humanos direitos morais básicos. Portanto, quando falo de reivindicação aqui, não falo de fazer uma exigência sem apontar os motivos; falo de expor claramente os argumentos. Além do mais, é um tanto ilusório pensar que a maioria das pessoas, que cresceu num padrão de valores especistas, vai mudar de idéia sem se deparar com nenhum questionamento a tais valores. A prova disso, é que durante milhares de anos, esses valores não foram questionados e os animais não-humanos continuam sendo explorados, de forma cada vez pior. Por fim, fica realmente estranho esperar que os especistas mudem de idéia quando aqueles que se dizem veganos por motivos éticos passam a mensagem (através de pronunciamentos ou do silêncio) de que outras pessoas não possuem a obrigação moral de parar de usar os animais. Do presente item, podemos concluir algumas coisas:
Muitas destas mesmas pessoas alegam que o que torna errado tentar convencer os outros a se tornarem veganos, ou defensores dos animais, é o próprio fato de se tentar convencer alguém. Dizem eles que ninguém tem o direito de convencer ninguém de nada, e que cada um deve viver sua vida como bem entender. Mas, alguém que tenta evitar que os outros convençam alguém, (por achar errado o ato do convencimento), está ele mesmo tentando convencer os outros de que é errado convencer os outros de algo, o que é contraditório. E, se como ele mesmo afirma, cada um deveria viver sua vida como bem entender, não haveria nenhum mal em viver sua vida convencendo os outros de algo. Resumindo, não há neutralidade nem inocência alguma. Estamos, o tempo todo, seja por atos, seja por omissões, influenciando nas decisões de outros indivíduos. Por fim, resta, como prometido no início do texto, analisar a posição dos vegetarianos não-veganos, diante da exigência de generalidade. Aqueles que se dizem vegetarianos por motivos éticos, mas são apenas ovo-lacto vegetarianos, precisam de uma explicação do porquê tratam casos semelhantes de maneira diferente. Tanto para a produção de carne quanto para a produção de leite e ovos, os animais são tratados como meros meios para fins humanos, seja na produção industrial, seja na produção "free-range". Se o motivo pelo qual não devemos comer carne é porque o animal não-humano sofreu um dano (seja com sofrimento ou não), da mesma forma (e, na grande maioria das vezes, de forma mais intensa) sofreu um dano (na forma de sofrimento e/ou morte e/ou privação do que lhe seria benéfíco) um animal explorado para obtenção de leite ou ovos. Sabemos também que, já que as galinhas e vacas - assim como todos os outros não-humanos - são vistos como meros meios para fins humanos, é muito provável que elas terminem sendo mortas para a fabricação de carne depois que parar de produzirem ovos ou leite. Isso sem contar o fato de que as vacas só produzem leite quando estão grávidas. Pra onde vão tantos bezerros? Enfim, existem inúmeras evidências para se sustentar que o consumo de outros produtos de origem animal que não carne devam ser incluídos na mesma categoria deste último, pois, do ponto de vista dos animais escravizados, não há diferença alguma com relação a tais atos. A diferença é apenas o formato do produto final que chega aos supermercados. Se vamos ser éticos, então é preciso começar a enxergar as coisas do ponto de vista do paciente de nossa ação. A idéia que muitas pessoas possuem de que comer carne é contribuir para uma exploração das mais injustas e o ovo lacto-vegetarianismo, por sua vez, não é, enxerga a situação do ponto de vista humano, apenas. É porque não estão contemplando um cadáver em sua frente que não vêem tanto problema com o leite e com os ovos, mas então essa reação não possui nada a ver com ética, mas com sua aversão subjetiva a contemplar pedaços de cadáveres. Para o paciente da ação (o animal não-humano), tanto faz se ele vai ser morto para ter sua carne consumida ou se vai servir de máquina de converter ração em ovos ou ração em leite. Com isso, tomar uma decisão ética com relação às nossas atitudes que atingem interesses de animais não-humanos implica em adotar o veganismo, e não o ovo-lacto vegetarianismo. Também quanto ao veganismo, é preciso tecer algumas palavras finais. Se, ao tomarmos uma decisão ética, adotamos o ponto de vista dos pacientes da ação, para sermos coerentes, precisamos querer que todos os outros agentes morais que estejam em condições de fazer essa escolha, façam. Para fazerem tal escolha, é preciso que eles estejam bem informados do porquê um raciocínio ético realmente imparcial exige que se inclua os animais não-humanos dentro da esfera de consideração moral. Assim, aqueles que tomaram uma decisão de viver de forma ética com relação aos animais não-humanos precisam querer que as outras pessoas conheçam os argumentos em defesa dos animais não-humanos enquanto merecedores de respeito moral, para que possam, por elas mesmas, analisar os argumentos e entender que o peso da razão está do lado da abolição do uso dos animais não-humanos, e não de seus exploradores. Vegetarianos e veganos que não querem que outras pessoas se tornem também vegetarianos e veganos não tomaram uma decisão de viver uma vida ética com relação aos animais não-humanos. Concluindo esse item, podemos notar que a primeira falha nossa, é a de que o movimento está mais preocupado em transformar as pessoas em indivíduos que praticam uma atividade que é a mesma praticada por defensores dos animais - o veganismo - , do que propriamente formar defensores dos animais. O movimento deu muita ênfase no fato das pessoas precisarem rever suas práticas - o que é o mais importante, e é compreensível que a primeira preocupação seja esta, já que se corre o risco de se fazer um discurso vazio - , mas se cometeu o erro de se pensar que o que as pessoas pensam não influencia nas decisões que elas tomam. Se quis uma revolução prática sem uma revolução conceitual que servisse de alicerce a elas. Não há uma estrada com apenas dois caminhos: ou fazemos uma revolução mental ou uma revolução prática; ao invés disso, temos a felicidade de poder perceber que as duas coisas precisam caminhar juntas. Já vimos acima, que embora tenha seu valor o fato de uma pessoa não consumir animais, mesmo que seja por outros motivos que não a adoção de uma postura ética, essa posição tem dois limites fortes: a) o primeiro é que os animais são explorados em muitas outras áreas que não a alimentação e b) tais pessoas provavelmente não estarão interessadas em fazer com que outras pessoas passem a agir de forma ética com relação aos animais, já que elas mesmas não agem. Outra falha aparente, e conseqüência dessa primeira falha, é o fato de que muitos vegetarianos/veganos que se dizem pelos animais, afirmam não haver nada de errado com outras pessoas, que não eles, consumirem animais; logo, não possuem o desejo de que outras pessoas passem a respeitar os animais, portanto, não querem a abolição do uso de animais não-humanos. Pode ser que essas pessoas não se tornaram abolicionistas por não entenderem o que é fazer uma escolha ética. Ou ainda, pode ser que sejam vegetarianas/veganas mas ainda sejam especistas, caso mantenham que no caso de um estupro de um humano, é uma questão de obrigação se opor a tal ato e no caso de consumir a vida de animais não-humanos trata-se de uma questão de gosto. Tal posição pode também ser resquício do que o filósofo e jurista norte-americano Gary L. Francione chama de status dos não-humanos enquanto itens de propriedade. Um item de propriedade é algo que, por definição, só possui valor condicional - seu valor é determinado pelo quanto importa para o proprietário -; assim, os veganos que não vêem mal algum em outras pessoas consumirem animais e não querem que elas mudem, continuam vendo os não-humanos como meras coisas, que não possuem valor por si mesmos - a vida deles, pensam, nada importa - mas só possuem valor enquanto servirem a algum propósito - econômico, estético, afetivo, etc - para o humano.. O futuro do movimento de defesa animal dependerá de quantas pessoas estarão dispostas a tomarem a decisão de viver eticamente com relação aos animais. Por sua vez, esse número depende totalmente dos que já tomaram essa decisão hoje, pois somos nós, que já reconhecemos o dever de tentar fazer com que outras pessoas também percebam que, enquanto seres racionais, possuem também o mesmo dever, pois têm a capacidade de entender os argumentos. É muito importante que divulguemos a argumentação ética em defesa dos não-humanos. Ser vegano é uma conseqüência óbvia de ser ético para com os não-humanos, mas isso só não basta. O uso dos não-humanos não será abolido se poucas pessoas forem abolicionistas. Tão importante quanto o veganismo é tentarmos mostrar às pessoas que, longe de ser uma questão de gosto pessoal, a escravidão, morte e sofrimento que os não-humanos passam todos os dias, são, de fato, muito errados. Essa estratégia, de fazer com que as outras pessoas passem a agir eticamente com relação aos animais não-humanos também tem seus limites - apesar de eu ainda vê-la como a mais importante hoje em dia. Um dos limites é o fato de sabermos que sempre existirão aqueles que, mesmo compreendendo o que a razão indica fazer, não decidirão agir eticamente; assim, medidas de proteção legal, com vistas a garantir direitos para os não-humanos precisam ser sempre tentadas conjuntamente com a estratégia de se erradicar o especismo das mentes dos humanos. E, é óbvio, falo aqui de medidas legais que visem gradualmente ao abolicionismo, e não, leis de bem-estar animal4. Não abordei propositalmente aqui a objeção de que, se defendermos uma postura ética com tanta convicção, as pessoas irão se afastar do assunto e, por criarem uma aversão a ele, jamais se tornarão éticas para com os animais. Essa objeção requer um item à parte, e a abordarei em outros trechos da presente crítica. Tal aversão se deve mais à forma de abordagem e à teimosia das pessoas do que propriamente da quantidade de convicção e radicalismo com que se defende uma idéia. Não tratarei aqui, por enquanto, neste item, da melhor forma para expormos nossas idéias. Por hora, apenas relembro que, a aversão temida já está presente e foi criada e fortalecida por milênios de especismo atuante em nossas mentes. Cabe a nós, que já sabemos que o especismo é injustificável, desfazer esse medo que a maioria tem de pensar nesse assunto. Se nos omitirmos, saberemos muito bem que o caminho poderia ter sido outro caso nos pronunciássemos. Agora que sabemos disso, a tarefa e o dever são, primeiramente, nossos. Notas 1 Sobre o status dos animais não-humanos enquanto itens de propriedade de animais humanos, cf. Gary L. FRANCIONE, Gary L. Animals, Property and The Law - Philadelphia: Temple University Press, 1995 2 Sobre um exemplo da exigência de generalidade, cf. Sônia T. FELIPE. Por uma questão de princípios: Alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais. Florianópolis. Fundação Boiteux, 2003, p. 76, 77 3 Tenho em mente aqui, agentes morais, ou seja, indivíduos que possuem autonomia moral e liberdade para cumprir o dever. 4 Para ver como o movimento de defesa animal perdeu tempo buscando leis bem-estaristas, e porquê esse tipo de lei não garante proteção alguma aos animais, cf. Gary L. FRANCIONE, Rain Without Thunder: The Ideology of Animal Rights Movement - Philadelphia: Temple University Press, 1995
Mestrando em Ética e Filosofia Política na UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina, licenciado em Educação Artística com habilitação em música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e colaborador da revista Pensata Animal. Pensata Animal nº 8 - Fevereiro de 2008 - www.pensataanimal.net |
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| Última atualização em Seg, 24 de Novembro de 2008 19:27 |








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