| A farra da Quaresma |
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| Samantha Buglione | ||
| Ter, 24 de Fevereiro de 2009 19:38 | ||
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Quaresma, palavra latina que significa quadragésima é utilizada para designar o período de quarenta dias que antecedem a festa ápice do cristianismo: a ressurreição de Jesus Cristo, que é comemorada no famoso Domingo de Páscoa. Essa prática data do século IV e é a comemoração que precede a morte do Cordeiro Imolado. Segundo a crença cristã Jesus entrega-se, voluntariamente, à morte para salvar todos os seres humanos dos seus pecados. A grandeza de seu ato e da sua divindade é comprovada no milagre da ressurreição. Neste tempo, o da quaresma, os cristãos são convidados a fazerem uma comparação entre suas vidas e a mensagem cristã expressa nos Evangelhos. Essa comparação significa um recomeço, um renascimento para as questões espirituais e de crescimento pessoal. A Quaresma, com seu jejum, penitencia e caridade remonta mais a época de minha avó do que a conduta dos fanfarrões dos dias de hoje. Este período é mais conhecido pelos chocolates do domingo e pela Farra do Boi. Parece que a penitencia foi substituída pela bebedeira e pela gula e a caridade pela violência. A justificativa, afinal os seres humanos sempre tem justificativas para suas práticas, ainda mais as violentas, chama-se tradição. Mas não a tradição presente na orientação do tempo da quaresma, a tradição aqui é a da farra: a farra da quaresma. E essa farra, a do boi, usa tradição e folclore para se justificar. Vamos ser sinceros: é mais fácil jogar a razão para a tradição do que para um ato livre de crueldade e, é muito mais agradável farrear atrás do boi indefeso do que fazer penitencia, jejum e caridade. No Dicionário do Folclore Brasileiro de Luís da Câmara Cascudo (1962), não existe o verbete "farra do boi", apenas "boi-na-vara", que é explicado como um "habitualismo ilhéu", tido como uma "revivescência da tourada-a-corda praticada no Arquipélago dos Açores", conforme explica Walter Piazza. O tal "habitualismo" tratava-se de fustigar o animal, depois matá-lo e repartir a carne entre os participantes. O ponto é que a farra tratada hoje não é a "originalmente" - se é que se pode dizer que o original existe - deixada pelos açoriano-brasileiros. As ditas tradições são ressignificadas e, muitas vezes, usa-se o argumento do folclore para isentar qualquer feito. Aqui entra a ficção: defende-se uma tradição que pouco se conhece. Mario de Andrade definiu o boi como "o bicho nacional por excelência". Afinal, promove alimento e diversão: pão e circo, para dizer de outra forma. Mario de Andrade definiu o boi como "o bicho nacional por excelência". Afinal, promove alimento e diversão: pão e circo, para dizer de outra forma. A farra do boi ainda muito presente no estado de Santa Catarina e no discurso de políticos eleitoreiros é sintomática de uma moralidade humana: a violação ao principio da igualdade e especismo. O boi, hoje, é perseguido a caminhão e a sua morte é o gozo da violência. "Boi de campo", "boi-no-laço", "boi-solto", "brincadeira-de-boi", ou, simplesmente, "boi" são algumas das denominações para explicar algo próprio de uma época quando parte do cotidiano das atividades agrícolas e domésticas dos açoriano-brasileiros. A tal farra do boi tem a ver com as antigas formas de se amansar os animais destinados ao carro de boi, à tração do engenho ou à lida do tropeiro, a quem cabia o comércio do gado chucro. Pois bem, hoje, nas cidades, já não há nem um, nem outro. O boi se compra cortado e manso no supermercado. Os tropeiros viraram criadores e ninguém mais precisa de carro de boi para transportar coisa alguma, tampouco de engenho para os grãos. Sendo a "farra" uma "festa" dos dias de hoje, é neste contexto que deve ser compreendida. Ou seja, num contexto em que a satisfação de uns não pode se dar à custa da dor do outro, mesmo que este outro seja um ser subjugado e com preço - no caso, o boi. Quando se fala em direitos dos animais não se promove a igualdade entre diferentes espécies, porque não há igualdade entre elas. O que se observa é a igualdade em considerar os diferentes interesses que decorrem de seres vivos diferentes. Por certo o principal interesse aqui é viver a vida, sem dor, sofrimento ou violência. O que a farra do boi nos permite é olhar no espelho e perceber que a moralidade humano quase não mudou. Nossa prática de correr e matar quem subjugamos e não reconhecemos valor não é nova e o argumento é muito próximo: racismo, sexismo e especismo pertencem a mesma estrutura cognitiva de desconsiderar a diferença em nome do benefício de quem domina a ação. Somos ainda racistas e especistas. Ignoramos o valor da diferença e fazemos dela argumento útil para justificar interesses. No caso dos animais trata-se de especismo que é, igualmente, uma discriminação praticada "pelo homem contra outras espécies", como explica Richard Ryder. Tanto o racismo quanto o especismo - e até o sexismo -, conforme observa Sonia Felipe, "não levam em conta ou subestimam as semelhanças entre o discriminador e aquele contra quem este discrimina. Ambas as formas de preconceito expressam um desprezo egoísta pelos interesses de outros e por seu sofrimento". Parece que não apenas as tradições se ressignificam, mas os preconceitos também: muda-se para ficar tudo igual. Para os defensores dos direitos dos animais, o princípio fundamental é o de que todos os animais não-humanos merecem viver de acordo com suas próprias naturezas, livres de serem feridos, abusados e explorados. Esse é um princípio que vai além do que advoga o movimento pelo bem-estar animal, que objetiva garantir o mínimo de bem-estar aos animais que são explorados antes do abate. Ou seja, além do bem estar o que se observa é que para que princípios como o da igualdade façam sentido é preciso coerência e isso implica em respeitar os seres vivos - humano ou não - na sua singularidade e forma de viver a vida. A negação da idéia do direito de liberdade dos animais ou do cuidado com o seu bem-estar reforça o quanto nos falta compaixão, não apenas com os da nossa espécie, mas com outros animais, também capazes de sentir dor, medo, prazer e afeição. Uma das poucas coisas que nos diferencia dos outros animais é a possibilidade de constituir um traço biográfico. Ninguém vai ver inscrito em pedra ou em uma canção a lembrança de um grande pássaro que fez algo de notável pela sua espécie, salvo na mitologia. Mais que uma dádiva, isso é uma responsabilidade e exige disciplina (que nada mais é do que a idéia de ‘discípulo de si mesmo'). Uma vez que temos o livre-arbítrio dos cristãos, a liberdade dos clássicos ou a razão dos iluministas, podemos escolher, em larga medida, o nosso próprio destino. Não no sentido de resultado específico ou esperado, mas no de agir conforme nossas intenções e vontade. As opções são várias, posso ir ao encontro imediato de uma prática hedonista, de uma felicidade a qualquer preço e recompensar meu cérebro com as descargas químicas de prazer; ou posso agir no sentido da perfectibilidade pessoal, de um projeto, de uma vontade. Interessante é perceber que o que nos faz tão humanos, como a preocupação em melhorar a qualidade de vida, lutar contra a miséria, diminuir a dor, preservar a vida, é tudo, absolutamente tudo, que se esvai na forma como a farra do boi é feita. Não mais o respeito ao alimento, não mais a preocupação com a dor, não mais o respeito à vida. Apenas o gozo, a festa, o prazer egoísta. É aterrador o quanto a vida se vulgariza por atos como este. Farrear, matar, arriscar a própria vida sem razão expressam o desejo egoísta que compensa a morte. Nas palavras do poeta Sri Aurobindo, "vida é vida - seja de um gato, cão ou homem. Não há diferença entre um gato e um homem nesse aspecto. A idéia de diferença é uma criação humana para o seu próprio proveito". Por conta disso, é possível concluir que a farra do boi serve apenas para uma coisa: promover o risco, levar ao limite e divertir aqueles que vibram com a morte cruel. O boi-na-vara tradicional não existe mais, como também não existem mais as razões para aquela prática. Assim, não há conflito algum entre tradição e proteção aos animais. Simplesmente porque não há mais a tradição que se apregoa. O que há é crime: violação do art. 32 da Lei nº 9.605, de 1998, que imputa pena de detenção de três meses a um ano e multa para quem "praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos". Ainda o artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, proclamada em assembléia da Unesco, em Bruxelas, a 27 de janeiro de 1978, destaca que "todos os animais nascem iguais diante da vida e têm o mesmo direito à existência". A tradição se dissipou. Restou apenas um álibi para a crueldade. E, por fim, a morte: a morte tradicional do boi, talvez a única tradição em tudo isso.
Samantha Buglione Pensata Animal nº 20 - Fevereiro de 2009 - www.pensataanimal.net Adicione esta página entre as favoritas em sua rede social |
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| Última atualização em Dom, 22 de Março de 2009 14:05 |









Comentarios
Obrigada a todos vós.
Abraço João Paulo
Já tive a infelicidade de registrar tal bárbarie: quando percebi a festa das pessoas aguardando a chegada do boi, avisei os policiais que estavam fazendo uma barreira para "evitar" tal prática há quilometros do local, a resposta deles foi simples e taxativa: "não podemos fazer nada, só cumprimos ordens e devemos permanecer aqui, parados, além disso as autoridades sabem que tal prática vai acontecer e nada fazem, de fato, para evitar, não somos nós que vamos impedir"...
Fiquei muito indignada.... mas é assim... pura ignorância!
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