Glossário

Imprimir

Luciano Carlos Cunha

Escrito por dmarski. Senciência

Junção de dois conceitos: sensibilidade e consciência. Diz-se de organismos vivos que não apenas apresentam reações orgânicas ou físico-químicas aos processos que afetam o seu corpo (sensibilidade), mas além dessas reações, possuem um acompanhamento no sentido em que essas reações são percebidas como estados mentais positivos ou negativos. É portanto, um indício de que existe um eu que vivencia e experimenta as sensações. É o que diferencia indivíduos vivos de meras coisas vivas. 

A evidência mais comum, do ponto de vista de um observador externo, de que um ser é senciente, é a reação física de tal ser a eventos que afetam maleficamente o seu organismo: seres sencientes procuram se afastar e fugir de tudo o que lhes causa dor e sofrimento. Além das evidências empíricas, pode-se chegar à conclusão de que um ser é senciente por analogia de aparato biológico comum ao que sabemos serem indícios mentais em nós mesmos. Sobre o sofrimento, a filósofa Sônia T. Felipe menciona: 

"Para se poder dizer de um ser que este tem a capacidade de sofrimento, à qual se pode designar “capacidade para realizar a perda”, tal deve apresentar, de alguma maneira: 1) uma sensibilidade para os eventos que afetam o próprio organismo; 2) uma consciência dessa afecção, ou, em outras palavras, uma espécie de percepção das próprias experiências afetivas, a qual vem acrescida, na maior parte dos seres sensíveis, daquilo que chamamos de 3) memória, a qual torna o ser apto para reter ou manter o registo das informações de experiências passadas, e de 4) imaginação ou capacidade para ordenar as experiências sensíveis, as imagens da memória e a recordação consciente das mesmas de modo a prevenir-se contra situações de risco no presente. Quando tal capacidade se apresenta ainda mais elevada, o indivíduo pode, ainda, apresentar outra habilidade, qual seja, a de 5) ordenar atos em relação não apenas ao presente mas também ao futuro, demonstrando, desse modo, que tem 6) consciência temporal de si, o que caracteriza sua preferência por estar vivo e não pelas situações nas quais arrisca-se a morrer. Todas essas habilidades estão presentes em maior ou menor grau em todos os animais sensíveis. A diferença entre humanos e não humanos, no que diz respeito a tais experiências, é, pois, de grau, não de essência, tese apresentada por Darwin e incorporada por Singer em sua ética na defesa dos animais." (FELIPE. 2003, p. 113) 

Como a evidência de dor é geralmente a característica mais visível da presença da senciência, na maioria das vezes cita-se a semelhança entre seres humanos e muitos animais de possuírem um sistema nervoso central organizado, para distinguir quais animais seriam sencientes e quais não seriam. Porém, a reação ao tato não é a única característica da senciência. A mente de um indivíduo pode ser construída a partir de outros órgãos do sentido. Portanto, se há um olho, é provável que haja um eu percebendo o mundo de dentro para fora e construindo uma mente, dentro daquele organismo. A mente parece ser então construída a partir de uma junção das informações oriundas dos sentidos disponíveis naquele ser. 

Nesse sentido, é também provável que o conceito de senciência esteja vinculado à própria condição de ser um animal – seres que se separam de sua fonte de provimento ao nascer e precisam buscar o alimento por movimento próprio -, de acordo com a definição dada pelo filósofo Arthur Schopenhauer em O Mundo como Vontade e Representação

“O alimento, por conseguinte, tem de ser procurado e escolhido desde o momento em que o animal sai do ovo ou ventre da mãe, nos quais vegetava sem conhecimento. Daí ser aqui necessário o movimento por motivo e, por isso, o conhecimento, que portanto aparece como um meio de ajuda (...) exigido nesse grau de objetivação da Vontade para conservação do indivíduo e propagação da espécie. O conhecimento aparece representado pelo cérebro ou por um grande gânglio; precisamente como qualquer outro esforço ou determinação da Vontade que se objetiva é representado por um órgão, quer dizer, expõe-se para a representação como um órgão. - Com esse meio de ajuda, (...) surge de um só golpe o mundo como representação com todas as suas formas: objeto e sujeito, tempo e espaço, pluralidade e causalidade. O mundo mostra agora o seu segundo lado. Até então pura e simples vontade, doravante é simultaneamente representação, objeto do sujeito que conhece.” (SCHOPENHAUER, 2005, p. 214-215, grifos meus).

Ver também verbete Animal.

Referências Bibliográficas

FELIPE, Sônia T. . Por uma questão de princípios: Alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais. Florianópolis. Fundação Boiteux, 2003 

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Como Representação. São Paulo, Unesp, 2005 

Agradecimento à Camila Koerich pela indicação da definição de Arthur Schopenhauer.